Bioethics@

Extinção Deliberada?

Etapa 1

Ao longo da História, a humanidade causou a extinção de numerosas espécies e sistemas ecológicos. Estes episódios de extinção resultaram directa ou indirectamente de actividades humanas, e a frequência de extinções ocorre hoje numa taxa alarmante. A maior parte das extinções foram provavelmente uma consequência inadvertida de algum impacto antropogénico na natureza, mas algumas delas poderiam ter sido previstas.

Durante séculos, o vírus da varíola foi um dos piores flagelos da humanidade. Matou mais pessoas em todo o mundo que qualquer outra doença infecciosa, particularmente em populações não imunes, como os nativos das Américas. A campanha da Organização Mundial de Saúde (OMS) contra a varíola, lançada em 1967, foi altamente eficaz, e resultou na declaração formal de erradicação da doença em 1979. A OMS considera a destruição em 1999 dos dois stocks remanescentes de vírus da varíola, localizados em dois laboratórios de alta segurança, nos Estados Unidos e na Rússia.

Embora possa haver razões imperiosas para o fazer, a erradicação deliberada de todo um sistema ou espécie biológica da face da Terra nunca foi proposta antes, e coloca um dilema ético: teremos o direito de, deliberada e directamente, causar a extinção de um ecossistema, de uma comunidade ou de uma espécie? Se sim, em que circunstâncias? E se não, porquê?

Etapa 2

O Dr. Albert Jardim é o director de um laboratório de pesquisa sobre doenças infecto-contagiosas. O Dr. Jardim está ciente de que a argumentação da OMS para eliminar o vírus se baseia nas seguintes razões: (1) o risco de libertação e contaminação acidental; (2) o risco de que o vírus possa vir a ser usado para guerra biológica; (3) a sua actual irrelevância para fins científicos; (4) o simbolismo da total erradicação de uma entidade tão maléfica.

Ignorado por todos os demais, ele sabe que há uma amostra do vírus conservada no seu laboratório. No entanto, o Dr. Jardim sabe que (1) o risco de infecção acidental a partir do seu laboratório é virtualmente nulo; (2) o risco de uso militar ou terrorista não faz sentido face à existência de agentes de guerra biológica muito mais eficazes e acessíveis em todo o mundo; (3) a destruição não assegurará só por si que a doença não possa eventualmente ressurgir a partir de amostras desconhecidas (e.g. cadáveres preservados em regiões geladas, ou outras amostras não referenciadas como a sua); (4) e além disso, novo conhecimento virológico relevante só pode ser obtido a partir de vírus intactos.

O Dr. Jardim tem a convicção de que cada entidade biológica deste planeta é o resultado único e irreprodutível de uma longa história evolutiva, o que a torna uma preciosa e insubstituível entidade de complexidade e organização. Está consciente de que parte da comunidade científica partilha do seu ponto de vista. O Dr. Jardim conclui que o seu stock de vírus da varíola não deve ser destruído, e decide consultar os seus dois únicos colaboradores que também têm acesso potencial aos stocks de vírus. Se obtiver o acordo unânime dos seus colegas, o seu laboratório manterá o vírus da varíola em segredo.


Caso de estudo produzido no "National Bioethics Institute" (Oregon State University, 8/98).
Autores: J. Marques da Silva, C. Price, B. Rettig, H. Rosa, C. Schreck, N. Stanton.
Traduzido do inglês a partir de "The Bioethics Institute: the art of teaching science ethics", in Reflections, Newsletter of the Program for Ethics, Science and the Environment, Dept. of Philosophy, Oregon State University, nº 2, vol 5, Setembro de 1998.)
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Last Update 06/06/03